Sobre mães, perdas e aquilo que não pôde ser dito

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Uma leitura de O Verão em que Mamãe teve os Olhos Verdesde Tatiana Țîbuleac.

Há livros que não nos convidam apenas à leitura. Eles nos obrigam a permanecer diante daquilo que gostaríamos de evitar. A boa literatura, assim como a psicanálise, não se apressa em explicar os afetos; ela nos convida a habitá-los.

Foi essa a experiência que tive ao ler O Verão em que Mamãe teve os Olhos Verdes, da escritora moldava Tatiana Țîbuleac.

Nas primeiras páginas, conhecemos Aleksy, um jovem consumido por um ressentimento feroz contra a própria mãe. Sua linguagem é agressiva, quase insuportável. Tudo parece indicar que estamos diante de alguém incapaz de amar.

Mas a literatura rara nos ensina a desconfiar das primeiras impressões.

À medida que a narrativa avança, percebemos que o ódio daquele filho talvez nunca tenha sido o oposto do amor. Ele surge como uma tentativa desesperada de sobreviver ao desamparo.

A casa em que Aleksy cresceu já havia sido devastada pela perda de uma irmã. A mãe, tomada pela própria dor, tornou-se emocionalmente inacessível. Antes mesmo da morte, havia uma ausência.

Na clínica psicanalítica, encontramos frequentemente algo semelhante: o afeto que aparece de forma mais ruidosa nem sempre é o que ocupa o centro da experiência subjetiva. Às vezes, o ódio é a última forma encontrada pelo sujeito para preservar um vínculo que ameaça desaparecer. É mais suportável dirigir a raiva a alguém do que encarar o vazio deixado por sua perda ou por sua indiferença.

A hostilidade de Aleksy funciona como uma armadura. Uma defesa pesada, construída para proteger uma fragilidade que ainda não encontrou palavras.

O que torna o romance extraordinário é acompanhar o lento desmonte dessa armadura. Diante da proximidade da morte da mãe, algo se desloca. Não porque o sofrimento desapareça, mas porque ambos conseguem, pela primeira vez, olhar um para o outro para além das feridas que carregaram por tantos anos.

O romance de Țîbuleac nos lembra que, muitas vezes, aquilo que aparece como violência é também uma tentativa extrema de manter vivo um laço. Sob o ressentimento mais radical pode existir um pedido de reconhecimento que jamais encontrou forma de ser dito.

Talvez seja por isso que esse livro permaneça conosco depois da última página. Ele não oferece reconciliações fáceis nem respostas confortáveis. Apenas nos lembra que os afetos humanos raramente obedecem às oposições simples entre amor e ódio. Em geral, eles coexistem, se misturam e revelam a complexidade de tudo aquilo que nos constitui.

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